Pó branco que aparece na parede, tinta que incha e cai em escamas junto ao rodapé, reboco que se desfaz em areia quando lhe toca: em muitas casas portuguesas chama-se a isto salitre. Os técnicos falam em eflorescências. Este guia explica o que são, de onde vêm, porque é que pintar por cima não resolve e o que os fabricantes de tintas e argamassas mandam fazer antes de voltar a pintar.
Atualizado a 3 de novembro de 2026. Informação geral, não substitui a avaliação de um técnico.
O essencial
- O salitre são sais dissolvidos na água que entra na parede. Quando a água evapora, o sal fica e cristaliza (LNEC).
- Sem água não há salitre. O primeiro passo é sempre descobrir e cortar a entrada de humidade.
- Os cristais à superfície (eflorescências) sujam mas não partem o material. Os que se formam dentro dos poros (subflorescências) é que desfazem o reboco e a tinta (LNEC).
- Um primário anti-salitre retarda as eflorescências, dizem as fichas. Não substitui o corte da água.
- Com reboco já podre, a CIN manda retirar o reboco afetado, rebocar de novo e esperar cerca de 1 mês antes de pintar.
O que é o salitre, em palavras simples
Pedra, tijolo e argamassa estão cheios de poros. A água entra neles com sais dissolvidos. Quando a parede seca, a água sai como vapor e o sal fica, a cristalizar.
Os investigadores do LNEC Teresa Diaz Gonçalves e José Delgado Rodrigues descrevem dois casos:
- Eflorescências: o sal cristaliza à superfície. Vê-se como pó ou crosta branca. Segundo o LNEC, não causa danos mecânicos, mas é um problema de aspeto e de salubridade.
- Subflorescências: o sal cristaliza dentro dos poros, logo abaixo da superfície. Os cristais criam tensões que podem desintegrar o material. É daqui que vêm o reboco que esfarela, a tinta que empola e as fissuras finas.
O mesmo artigo acrescenta que os sais podem, por si, originar ou agravar problemas de humidade.
De onde vem a água e de onde vem o sal
Os autores do LNEC explicam porque é que o problema é tão frequente em casas antigas:
- os materiais antigos são muito porosos e absorvem água com facilidade;
- as paredes assentam diretamente no terreno, por isso a subida de água do solo por capilaridade é vulgar;
- ao longo dos anos acumulam-se sais e humidade de várias origens, sobretudo em períodos em que o telhado deixou entrar água ou o reboco esteve degradado.
Em edifícios recentes, a humidade vem normalmente de defeitos de construção. Mesmo assim, por dificuldade de diagnóstico, as reparações repetem-se muitas vezes.
Para saber qual é a sua fonte de água, leia o guia Humidade nas paredes: três tipos e como saber qual é. Se a água vem do andar de cima, veja Infiltração do vizinho de cima: quem paga.
Como reconhecer
| O que vê | O que costuma ser |
|---|---|
| Pó branco ou cristais que saem com a mão | Eflorescência à superfície |
| Tinta com bolhas cheias de pó, reboco que esfarela | Sais a cristalizar por baixo da tinta |
| Faixa húmida ou manchada a partir do chão, com limite irregular | Possível subida de água do terreno |
| Manchas que escurecem em dias húmidos e clareiam com tempo seco | Sais que absorvem humidade do ar |
| Pontos negros ou verdes, aveludados | Bolor, não salitre. Veja o guia do bolor |
A tabela orienta, não diagnostica. O teor de sal mede-se em laboratório, como faz o LNEC nos seus ensaios.
Porque é que pintar por cima não resolve
O artigo do LNEC descreve o que acontece quando se põe sobre uma parede com sais um revestimento que não deixa passar água nem vapor (chama-lhe «selante»):
- A água continua a chegar e procura sair por outro lado. Pode desviar-se para zonas vizinhas da parede, que passam a sofrer os danos.
- Quando o revestimento fissura, o que acaba por acontecer, a água e o sal saem por esse ponto. A cristalização concentra-se ali e a zona estragada vai alargando.
Por isso, uma tinta plástica nova, ou uma tinta «impermeável», aplicada sobre uma parede com sais e água a entrar, arrisca voltar a empolar. O sal não desapareceu: ficou por baixo, à espera de uma saída.
O que dizem os fabricantes
Lemos três fichas técnicas. Todas pedem o mesmo ponto de partida: suporte seco, firme e limpo.
| Produto | Para que serve, segundo a ficha | Como se aplica |
|---|---|---|
| CIN Anti-Salitre 17-680 (revisão de junho de 2023) | Revestimento aquoso que retarda o aparecimento de eflorescências; tratamento preventivo em paredes interiores ou exteriores | 1 demão, pronto a aplicar; 10 a 14 m²/L; repintura ao fim de cerca de 16 h |
| Robbialac Primário Anti-Salitre 020-0402 (11/03/2024) | Primário aquoso para evitar o salitre e retardar eflorescências; selante de humidade em rebocos | 2 demãos sem diluir; 6 a 10 m²/L; acabamento 1 a 2 dias depois |
| Robbialac Barreira Anti-Salitre 148-2006 (06/02/2021) | Argamassa de cal hidráulica que cria uma barreira ao salitre vindo da humidade das paredes | Camada de pelo menos 1 cm, até 0,5 a 1 m acima do nível da humidade |
Três avisos que estão nas fichas e que convém ler com atenção:
- A CIN manda retirar as áreas com eflorescências e reboco podre numa área maior do que a contaminada, rebocar de novo e esperar a cura do reboco, que demora cerca de 1 mês. E acrescenta que se devem eliminar as causas da humidade, para o salitre não voltar.
- A Robbialac diz que o seu primário não é adequado para paredes com humidade de condensação.
- Na solução de argamassa da Robbialac, o reboco antigo é removido até à alvenaria, a cerca de 1 metro acima da zona de cristalização. Por cima vai uma argamassa porosa (Restaura Desumidificante) com 2 a 3 cm, que, segundo a ficha, favorece a secagem da parede.
Repare no verbo que as duas fichas de primário usam para as eflorescências: retardar. Nenhuma das três diz que o tratamento aguenta se a água continuar a entrar.
Roteiro antes de pintar
- Encontre a água. Telhado, caleira, cano, terreno encostado à parede, condensação. Sem este passo, o resto é temporário.
- Corte a entrada de água ou reduza-a o mais possível. Em subida do terreno, peça avaliação a um técnico: as soluções variam com a parede.
- Retire o sal solto e a tinta que não está agarrada. O LNEC lista a remoção mecânica das eflorescências entre os métodos de controlo.
- Retire o reboco podre, para lá da zona manchada, como pede a CIN.
- Reboque de novo e espere a cura (cerca de 1 mês, segundo a CIN). Não tenha pressa: todas as fichas que lemos exigem um suporte seco.
- Aplique o tratamento indicado pela ficha técnica do produto que escolher, nas demãos e tempos indicados.
- Pinte com uma tinta compatível com esse primário. Para saber quanta tinta precisa, use a calculadora.
- Observe a parede durante uma estação húmida. Se o pó branco voltar, a água ainda está a entrar.
Quem chamar
Mancha pequena com causa já reparada: um pintor habituado a reboco resolve. Faixa que sobe do chão em várias paredes, ou que volta: primeiro quem diagnostique a humidade, depois o pintor. Peça a preparação por escrito (reboco a retirar, área, produto, tempo de cura) e veja como comparar orçamentos de pintura.
O que não conseguimos confirmar
- Preços de tratamento de salitre ou de reboco novo. Não encontrámos tabela oficial. O preço depende da área de reboco a retirar, da causa da humidade e do sistema escolhido.
- Quanto tempo dura cada tratamento. As fichas falam em «retardar», sem prazo.
- Lavar o salitre com água. Não encontrámos fonte oficial que o recomende ou desaconselhe para interiores. Na dúvida, siga a ficha técnica do produto.
- Sistemas para travar a subida de água do terreno (barreiras químicas, ventilação da base da parede, entre outros). Não lemos fontes oficiais suficientes para os comparar.
- O estado da sua parede. Este guia é geral. Só um técnico, no local, confirma a causa.
Fontes (lidas a 3 de novembro de 2026)
- LNEC, Teresa Diaz Gonçalves e José Delgado Rodrigues, Argamassas de revestimento para paredes afectadas por cristalização de sais solúveis: influência do substrato, comunicação ao congresso APFAC 2010 (secções 1.1 a 1.4: origem dos sais, eflorescências e subflorescências, princípios de funcionamento dos rebocos, rebocos selantes, secagem).
- Pedro Puim, Teresa Diaz Gonçalves e Vânia Brito (LNEC), Controlo e prevenção de anomalias devidas à cristalização de sais solúveis em edifícios antigos, PATORREB 2012 (só o resumo: lista de métodos de controlo).
- CIN, Boletim técnico Anti-Salitre 17-680, revisão de junho de 2023 (descrição, preparação de superfície, aplicação, rendimento, secagem).
- Tintas Robbialac, Ficha técnica Primário Anti-Salitre 020-0402, versão de 11/03/2024 (descrição, utilização, aplicação, rendimento, outras informações).
- Tintas Robbialac, Ficha técnica Barreira Anti-Salitre 148-2006, versão de 06/02/2021 (preparação do substrato e aplicação).
- Tintas Robbialac, Ficha técnica Restaura Desumidificante 148-2016, versão de 12/10/2021 (utilização, espessura, secagem).
Os produtos são citados como exemplos de fichas técnicas públicas. O ParedeCerta.pt não vende nem recomenda marcas.
