Já sabe que a humidade na parte baixa da parede vem do chão. Falta decidir o que fazer. Há várias famílias de tratamento, nenhuma serve para todas as paredes e as fontes técnicas discordam sobre algumas. Este guia explica como se confirma o diagnóstico, o que cada tratamento faz, onde falha e o que perguntar antes de aceitar um orçamento. Para distinguir a capilaridade da condensação e da infiltração, comece por humidade nas paredes: os tipos.
Atualizado a 3 de novembro de 2026. Informação geral, não substitui a avaliação de um técnico.
O essencial
- Segundo o LNEC, se o teor de água é elevado junto ao solo e diminui com a altura, é provável que haja humidade ascensional. Se se mantém no verão e no inverno, sem outra fonte, aponta para a capilaridade.
- Um humidímetro dá valores comparativos e não absolutos, e os sais alteram a leitura (LNEC). Diagnosticar só com um aparelho é um erro conhecido (SPAB).
- Os autores da FEUP escrevem que o tratamento é muito complexo e que muitas técnicas não têm a eficácia desejável, sobretudo em paredes antigas, grossas e heterogéneas.
- Impermeabilizar a parede por um lado, por exemplo com cimento ou azulejo, faz subir mais a humidade (FEUP).
- Antes de qualquer obra no interior, corrija o que alimenta a água: drenagem, pavimento, canos.
Primeiro: será mesmo capilaridade?
O LNEC (relatório 115/2008) propõe cruzar várias técnicas: termografia, sondas, humidímetro, medição do teor de água em amostras e ensaios de sais.
Os sais dão uma pista. Segundo o LNEC, nitratos e nitritos no reboco indicam que a água pode vir do terreno, e os nitritos, por serem instáveis, sugerem que a fonte ainda está ativa ou esteve até há pouco.
A SPAB (instituição britânica de conservação, nota técnica sobre edifícios anteriores a 1919) avisa que a humidade ascensional é muitas vezes mal diagnosticada com base em leituras altas do humidímetro, que também sobem por sais antigos, certos materiais, salpicos de chuva ou condensação. Diz que, quando existe, costuma haver um rasto visível a marcar a altura, e que pode ficar entre 10 e 50 mm acima do piso ou chegar a 900 mm ou mais, conforme o terreno exterior, o tipo de parede, o nível da água e a evaporação.
Antes de tratar: tirar a água de perto da parede
O LNEC refere que a água pode estar acumulada no pavimento junto ao edifício, por drenagem deficiente. A SPAB indica obras no exterior: retirar plantas junto às paredes, baixar o terreno junto ao edifício para pelo menos 150 mm abaixo do piso interior, melhorar a drenagem. Avisa que uma vala drenante sem inspeção pode entupir e piorar a humidade, e que mexer no terreno pode afetar fundações. Esgotos e canos com fugas também alimentam a parede.
As famílias de tratamento
A tabela segue o artigo de V. P. de Freitas e A. S. Guimarães (FEUP, 2014), com outras fontes onde indicado.
| Família | O que faz | O que dizem as fontes |
|---|---|---|
| Barreira física | Troços de parede trocados por material impermeável, carotagens (método de Massari) ou chapas de aço inox | Eficaz, mas difícil e morosa; exige alvenaria de elementos pequenos e regulares; vibrações e risco de instabilidade (FEUP) |
| Barreira química | Furos a 10 a 20 cm, profundos cerca de um terço da espessura (dois terços se só de um lado), com produto injetado perto do solo | Dificilmente eficaz em paredes muito grossas e heterogéneas (FEUP). A SPAB defende forte presunção contra a injeção em edifícios antigos britânicos e nota que o tratamento é difícil em paredes de pedra com miolo de entulho |
| Espaço de ar e forra interior | Forra a cerca de 10 cm da parede, ventilada para o exterior, base impermeável | Eficaz se bem executada, mas perde área e esconde a parede; não ventilar para dentro de casa (FEUP) |
| Reboco de porosidade controlada | Camada que facilita a evaporação e a cristalização dos sais sem degradar | Usa-se quando não se pode atuar nas causas; não serve em paredes sem reboco; podem surgir eflorescências (FEUP) |
| Ventilação da base | Canais junto à parede e ventilador higrorregulável | Só com o terreno de fundação acima do nível freático (FEUP). Estudo em laboratório e numa igreja, dos autores da patente |
| Eletro-osmose, tubos de Knappen | Contrariar o potencial capilar; tubos para secar | Eficácia reduzida (FEUP) |
Rebocos macroporosos: o que se pode e não se pode esperar
Duas notas do LNEC (Gonçalves e Delgado Rodrigues, comunicação ao congresso APFAC 2010) pesam aqui. Primeiro, o comportamento de um reboco perante os sais não é uma característica própria do reboco: depende do suporte e das condições, por isso aconselham testes prévios ou ensaios no local. Segundo, criticam a norma EN 998-1 por definir os rebocos “de renovação” por propriedades gerais, sem referir o princípio de funcionamento. Distinguem rebocos de acumulação, que guardam o sal e protegem a superfície (adequados, por exemplo, a uma habitação), e rebocos de transporte, que levam o sal à superfície. Foi um ensaio de laboratório, não um estudo de obras.
Exemplo de ficha de fabricante: a Robbialac descreve uma Barreira Anti-Salitre, uma argamassa de cal hidráulica aplicada com pelo menos 1 cm sobre alvenaria a descoberto (reboco antigo retirado cerca de 1 m acima da zona de cristalização), e por cima a argamassa Restaura Desumidificante, com 2 a 3 cm, resistência à difusão de vapor inferior a 5 m e marcação CE segundo a EN 998-1. A ficha manda esperar 2 ou 3 dias entre camadas. São afirmações do fabricante, sem verificação independente. Veja também salitre nas paredes.
Quando trocar o reboco
A SPAB nota que as empresas costumam exigir, como condição da garantia, retirar o reboco interior até cerca de 1 m do piso, e que, se o novo reboco for aplicado antes de a parede secar, os sais que ficaram na parede podem contaminá-lo. O LNEC diz que, quando se opta por substituir revestimentos, é preciso reparar ou reduzir antes as causas, e usar materiais compatíveis com os existentes.
Perguntas para pôr a quem faz o orçamento
- Que medições fez e em que alturas? Há valores no verão e no inverno?
- Como excluiu infiltração, fuga de cano e condensação?
- Que família de tratamento propõe e porquê para esta parede (espessura, material, reboco existente)?
- O que muda no exterior: terreno, pavimento, drenagem?
- O que fica prometido por escrito, durante quanto tempo e em que condições? Veja como comparar orçamentos de pintura.
- Quanto tempo deve secar a parede antes de pintar?
Uma tinta por cima não trata a causa: veja tinta anti-humidade e anti-bolor: funciona?.
O que não conseguimos confirmar
- Preços de qualquer tratamento: não encontrámos tabela pública fiável. Depende da área, da espessura da parede, da família e do exterior.
- Durações de obra e de secagem da parede: só a ficha da Robbialac dá tempos entre camadas.
- Taxas de sucesso de cada técnica em Portugal: as fontes dão opinião técnica, não estatísticas.
- Se a injeção química funciona nas paredes portuguesas correntes: a FEUP e a SPAB são céticas em paredes antigas e grossas, mas não lemos estudos sobre paredes modernas de tijolo.
- O sistema de ventilação da base é patenteado pelos autores do artigo: lemos a descrição deles, sem avaliação independente.
Fontes (lidas a 3 de novembro de 2026)
- LNEC, Departamento de Edifícios, Metodologia de diagnóstico de anomalias devidas à humidade em paredes antigas, Relatório 115/2008, março de 2008 (secções 3.4, 4.5, 5.2, 6 e 7).
- V. P. de Freitas e A. S. Guimarães, Tratamento da humidade ascensional no património histórico, Revista ALCONPAT, vol. 4, n.º 1, 2014 (lido por inteiro).
- T. D. Gonçalves e J. Delgado Rodrigues (LNEC), Argamassas de revestimento para paredes afectadas por cristalização de sais solúveis: influência do substrato, APFAC 2010 (conclusões e discussão).
- Douglas Kent, SPAB, Control of Dampness, nota técnica sem data impressa (ficheiro de 11 de agosto de 2020); secções 2.3, 4.3, 6.3 e 6.6. Fonte britânica, sobre edifícios anteriores a 1919.
- Tintas Robbialac, Ficha técnica Barreira Anti-Salitre 148-2006 e Ficha técnica Restaura Desumidificante 148-2016, versões de 06/02/2021 (Barreira) e 12/10/2021 (Restaura); preparação do suporte, espessura, secagem, resistência à difusão de vapor.
