Uma caleira entupida ou um tubo de queda rachado despeja a água da chuva sobre a fachada, em vez de a levar ao esgoto pluvial. A parede fica molhada durante horas, às vezes dias, e a humidade acaba por aparecer do lado de dentro. Este guia explica como reconhecer o problema, como inspecionar sem se pôr em risco, o que se pode reparar e de quem é a obrigação de o fazer numa moradia e num prédio.
Atualizado a 4 de novembro de 2026. Informação geral, não substitui a avaliação de um técnico nem o aconselhamento jurídico.
O essencial
- Os dois defeitos mais comuns são caleira entupida que transborda e tubo de queda com fuga. A fonte britânica Cadw diz que a causa mais comum é um entupimento, que muitas vezes se desfaz à mão.
- Sinais de fora: manchas e verdete na parede por baixo da caleira ou ao longo do tubo, ferrugem, musgo ou algas (Cadw; Building Conservation).
- Sinais de dentro: manchas que aparecem depois da chuva, no teto do último andar ou em paredes exteriores. Isso distingue a infiltração da humidade que sobe do chão.
- Limpe e inspecione com a chuva a cair e com segurança. Se a caleira é alta, chame um profissional.
- Num prédio, o telhado e as instalações gerais são partes comuns (Código Civil, artigo 1421.º). O caso vai ao administrador, não ao vizinho.
Como a caleira molha a parede
A caleira recolhe a água do telhado e conduz-a aos tubos de queda. Se está cheia de folhas, terra ou ninhos, a água sobe, passa por cima da borda e escorre pela fachada. A Building Conservation (Reino Unido) descreve exatamente este caso: folhas de outono que entopem as peças provocam molhagem concentrada e prolongada de paredes e peitoris.
O mesmo acontece se a caleira cede ou perde a inclinação: o Cadw manda procurar caleiras descaídas ou desalinhadas, porque a água fica parada em vez de escorrer para o tubo.
Por dentro, o resultado parece-se com outros tipos de humidade. Para os separar, veja os tipos de humidade nas paredes. A Building Conservation avisa que uma leitura alta na base da parede pode vir de uma fuga mais acima, que desce pelo interior da parede.
Como reconhecer o problema
| Onde olhar | O que procurar | Fonte |
|---|---|---|
| Fachada por baixo da caleira | Faixa escura ou verde, parede molhada depois de chuva | Building Conservation |
| Ao longo do tubo de queda | Ferrugem, manchas de água, musgo ou algas na parede ao lado | Cadw |
| Beirado e caleira | Plantas a crescer, caleira descaída, tubo desligado, grelha em falta | Cadw |
| Interior, último andar | Mancha no teto ou no topo da parede que aparece ou cresce depois de chuva | Building Conservation |
Uma regra prática, nossa: compare as datas das manchas com os dias de chuva. Se a mancha cresce quando chove, a água vem de fora. Se cresce também em tempo seco, veja como encontrar uma fuga de água na parede.
Inspecionar e limpar com segurança
O Cadw diz que a melhor altura para verificar caleiras e ralos é durante chuva forte, porque se vê onde a água transborda ou pinga. Pode fazê-lo do chão, sem subir a nada. Veja também se o tubo de queda desagua num ralo ou junto da parede.
Se tiver de subir, a segurança vem primeiro. O Cadw sugere, para caleiras muito altas ou difíceis, alugar uma torre de andaime, usar uma plataforma elevatória, ou contratar um profissional. A HSE (Reino Unido) pede que quem usa uma escada a verifique antes de cada utilização. Resumos do seu folheto indicam ainda o ângulo de 1 para 4 (base a 1 metro da parede por cada 4 metros de altura), três pontos de contacto e não se debruçar para o lado. Não lemos o folheto original, e não é regra portuguesa.
Use luvas grossas para tirar detritos (Cadw). Não suba a um telhado com chuva, vento ou musgo. Num prédio, não entre na cobertura comum sem o administrador saber.
O que se repara
- Limpar. Tirar folhas, terra e plantas das caleiras, ralos e embocaduras, sobretudo no outono e no inverno (Cadw). Desentupir o tubo de queda e o ralo onde desagua.
- Pôr proteções. O Cadw recomenda grelhas nas saídas contra entupimentos, e lembra que água retida que gela pode rachar tubos.
- Corrigir o alinhamento. Refixe a caleira descaída. Se transbordar sem entupimento, o Cadw admite que o sistema seja pequeno para chuvas fortes e que um tubo adicional ajude.
- Trocar peças partidas: troços rachados, juntas abertas, braçadeiras soltas.
- Levar a água para longe. A Building Conservation manda melhorar a drenagem ao nível do solo. Veja humidade em caves e paredes enterradas.
Só depois de a água de fora estar controlada vale a pena tratar o interior. Meça a secagem (higrómetro), veja salitre se houver sais brancos e repinte como em pintar depois de reparar uma infiltração.
Rufos e remates
Os rufos são os remates que ligam o telhado a paredes, chaminés e platibandas. Se estão soltos ou abertos, a água entra por aí mesmo com a caleira limpa. As fontes que lemos não os tratam, por isso não damos regras. Mancha junto a chaminé ou parede de remate pede um profissional que suba ao telhado.
De quem é a obrigação
Moradia. A cobertura e as caleiras são do dono da casa, e a conservação é dele. O dever legal de conservação dos edifícios está no Regime Jurídico da Urbanização e Edificação, mas não conseguimos abrir o texto oficial (ver “O que não conseguimos confirmar”).
Prédio em propriedade horizontal. O artigo 1421.º, n.º 1, do Código Civil declara comuns a estrutura, o telhado e os terraços de cobertura (alínea b)) e as instalações gerais de água, eletricidade, gás e semelhantes (alínea d)). Num acórdão da Relação de Guimarães (3 de março de 2022), a primeira instância tratou as águas pluviais e os tubos de queda da fachada como partes comuns, por essas duas alíneas, e condenou o condomínio. Só lemos um excerto, sem o resultado do recurso: é um caso, não uma regra.
Na prática: se a água vem da caleira ou do tubo da fachada comum, escreva ao administrador com fotografias, como no guia do condomínio. Esse guia explica as maiorias, as obras urgentes e o que fazer se o administrador não age. Para pintar a fachada, veja condomínio e câmara. Para o dano dentro da fração, veja o seguro multirriscos.
Roteiro
- Com chuva forte, veja de fora onde a água transborda ou pinga.
- Fotografe as manchas, com data, por fora e por dentro.
- Limpe o que alcança com segurança; chame um profissional para o que é alto.
- Repare as peças com defeito. Em prédio, avise antes o administrador, por escrito.
- Espere que a parede seque, meça, e só então repare o acabamento.
O que não conseguimos confirmar
- O texto oficial do artigo 89.º do RJUE (dever de conservação): a página do Diário da República não abriu. Vimos só referências em blogues e num acórdão.
- Qualquer norma portuguesa que fixe a periodicidade de limpeza de caleiras, ou o seu dimensionamento.
- O resultado do recurso do acórdão de Guimarães, e o folheto original da HSE sobre escadas.
- Custos de limpeza ou reparação: sem fonte pública datada, não damos valores.
Fontes (lidas a 4 de novembro de 2026)
- Cadw (governo do País de Gales), “Rainwater disposal”, https://cadw.gov.wales/rainwater-disposal. Lido: inspeção, limpeza, caleiras descaídas, grelhas, tubos de queda, segurança em altura.
- Building Conservation, “Rain Penetration”, https://buildingconservation.com/articles/rain/rain.htm. Lido: sinais, verdete, folhas em caleiras, remédios.
- HSE (Reino Unido), “Ladders”, https://www.hse.gov.uk/construction/safetytopics/ladders.htm. Lido: verificação antes de cada uso. Ângulo e pontos de contacto: citado através de resumos do folheto INDG402, não lido diretamente.
- Código Civil, artigo 1421.º, texto em https://informador.pt/?p=157454 (cópia não oficial). Lido: n.º 1 alíneas a) a d), n.os 2 e 3.
- Tribunal da Relação de Guimarães, Acórdão 2184/19.5T8BRG.G1, 3 de março de 2022, https://vlex.pt/vid/acordao-n-2184-19-1032051485. Lido: excerto da primeira instância.
